sexta-feira, 2 de março de 2012

Sakura no Chi chaper 8 part 1

Os dois mundos
Parte I - Mike

 Os minutos passavam como horas enquanto Mike olhava a volta do quarto no qual ela tinha dormido antes. Numa das mãos tinha a sua mala e noutra um como com bebida. “Era tudo suposto correr bem…” pensou, dando mais um gole. Já tinha examinado a mala duas vezes desde que o alarme soou, sem encontrar nada de importante. Para além de moedas estranhas, havia um cartão, intitulado: “Cartão de Comboio”. Tinha o nome de uma cidade do mundo humano, mas Mike não entendia como ela podia tê-lo. Só que o que mais o irritava era o facto de, apesar de ter sido ele a traze-la, ninguém o culpava. Nem mesmo os gémeos. Na verdade, eles pareciam sentir-se tão mal como ele. Olhando mais uma vez para a mala, Mike suspirou e deitou-se, analisando tudo o que tinha visto até aquele momento. Apesar de nenhum dos guardas estar morto, alguns estavam feridos. Não era possível identificar a fonte ou o objecto que criou os ferimentos. “Quem era ela?” interrogou-se, olhando para o tecto. “Eu vou encontra-la… nem que seja a última coisa que faça!” Era uma promessa um pouco estúpida, especialmente quando feita para si próprio, mas ele queria mesmo descobrir o que se passou naquele dia. Os gémeos pareciam ser da mesma opinião, pois logo que ele se levantou, estes apareceram a porta, olhando o com uma cara seria.
 - Acham que eles vão nos autorizar? – perguntou-lhes Mike, com um sorriso.
 - Sim. – Declararam os dois, respondendo ao seu sorriso.
 - Muito bem. Vamos para a Terra.



  A noite estava fria como o gelo e nem sequer as estrelas eram visíveis no céu escuro. Nem parecia um céu mas sim uma massa uniforme de carvão do mais negro que havia. O que deviam ser as nuvens não passavam de manchas. Não se via nada na superfície, apenas aquilo que estava iluminado pela lua. Era o único ponto de luz na vastidão negra.
 Os sons da cidade ouviam-se mesmo ao longe desta mas era no prédio mais alto da cidade que algo diferente do habitual aconteceu. Uma porta alta e larga apareceu do nada, coberta de fumo, com um aspecto velho e desgastado, como se não fosse utilizada já há vários anos. As portas tinham um símbolo gravado com uma cor mais clara, quase cinzenta, de uma flor de sakura.
 Então, a porta abriu-se e a note, que já estava fria, arrefeceu ainda mais. As pequenas gotas de água solidificaram e estalaram quando três pessoas saíram de dentro da porta. Usavam quimonos negros e tinham uma espada presa a cintura. O olhar deles era frio e preciso enquanto pensavam na missão que tinham pela frente. O mas velho, depois de olhar a volta, afirmou.
 - Vamos dividir-nos. Assim será mais fácil de encontra-la. – acrescentou, antes de dar a ordem de partir.
 Parecia que tudo a sua volta estava a dormir, mas Mike sabia que não era a verdade, apenas uma ilusão. Já há vários anos que nenhum do seu clã visitava a Terra. Na verdade, dali a alguns dias seria o 16º ano desde de que as portas fecharam-se. Foi uma sorte ter conseguido convencer o chefe a abrir a porta e se não fossem os convidados dele, provavelmente nunca teria conseguido. Correndo pelos telhados, ele tentava sentir algo de diferente, algo que não devia estar na cidade, mas tudo parecia normal. Demasiado normal para o seu gosto. Não existiam fantasmas a rondar as ruas, não havia monstros… o ar estava demasiado puro. Lembrou-se que o chefe avisou que as coisas poderiam ter mudado muito na cidade desde a ultima vez em que alguém pôs lá os pés. Por alguma razão, ninguém do seu mundo era autorizado a ir a essa cidade. Havia uma regra silenciosa entre todos. Ninguém perguntava pela cidade, ninguém referia o seu nome… Era como se não existisse, apesar de todos conhecerem a sua localização. “Isto é demasiado estranho…”
 Com um salto, Mike aterrou na erva macia de uma floresta que se situava a norte da cidade. Era nesse agregado de árvores com um aspecto assustador que o ar era mais puro. “Até a mim dá-me arrepios…” pensou, enquanto se aventurava pela floresta dentro.
 Os passos dele misturavam-se com o som das folhas ao vento enquanto este progredia, atento a tudo a sua volta. Seria horrível ser apanhado de surpresa. As folhas caíam lentamente de vez em quando, visto que ainda era verão e o Outono já estava perto. Olhando melhor, Mike reparou que algo errado se passava na floresta. Quanto mais progredia para o interior, mais florescidas estavam as árvores, como se fosse o inicio da primavera e não o fim do verão. As folhas e flores floresciam alegremente. Não era natural e quanto mais andava, mais as coisas se pareciam complicar. Os animais a correr de um lado para outro, sem medo de estranhos, as flores de inverno a florir, uma ribeira de água cristalina a correr alegremente, sem qualquer vestígio de poluição, completamente pura… Mike já nem sabia se aquilo tudo era realidade ou ilusão. Mas de uma coisa estava certo. Algo estranho passava-se na cidade. Na mesma cidade em qual Saya, a rapariga que desapareceu em frente dos seus olhos, estava.
  Foi então que, por entre as suas divagações, algo apareceu a sua frente, pregando-lhe um susto de diabos. Eram os gémeos, Eric e Alex, que também vieram ver o que era aquela floresta.
 - Vocês soa uns diabos… a quanto tempo que estão a seguir-me?
 - Só te vimos agora. – responderam os dois ao mesmo tempo.
 Desde alguns instantes antes que o irmão mais velho se sentia observado. No inicio, pensou que eram os animais da floresta ou os gémeos, mas naquele momento entendeu que era algo ou alguém diferente. Aproximando-se dos irmãos, sussurrou algo antes de se virar e começar a correr, sem qualquer aviso prévio, em direcção ao olhar. Algo nos arbustos moveu-se e uma figura encapuçada desatou a fugir, o mais rápido que conseguia.
 Foi então que os gémeos apareceram do nada e agarraram a figura, sem dar-lhe possibilidade de fuga.
 - Larguem-me! – exclamou uma criança, mordendo o braço do Eric.
 - Ei! – queixou-se o rapaz, surpreendido tanto pela voz como pelos actos da rapariga caída a sua frente.
 - Vão-se embora! – exclamou mais uma vez a rapariga de cabelos loiros. – Não são autorizados na floresta!
 Os rapazes entreolharam-se confusos. As suas palavras não faziam nenhum sentido, pelo menos para eles. Por alguma razão, parecia que já a tinham visto algures antes, mas nenhum conseguia lembrar-se onde. A rapariga levantou-se devagar, alisando a roupa. Alex quase se riu quando reparou na sua altura e roupa que usava por baixo da túnica cinzento-escuro que a cobria por completo. O capuz caiu com a capturam revelando uns cabelos loiros escuros encaracolados apanhados em dois rabos-de-cavalo simétricos por uma fita preta. Na verdade, quanto mais a olhavam, mais espantados ficavam. Parecia ter 10 anos e usava um vestido escuro, do estilo lolita, no qual as cores predominantes eram o preto e o vermelho. Alex observava-a com curiosidade quando os olhos da rapariga, castanhos-claros, quase amarelos, saltaram para a sua cara, como se ela também estivesse a aliviado, tal como ele o fazia.
 - Importam-se de sair da floresta? – interrogou a rapariga, com uma voz um pouco mais branda que antes. – Não são permitidos estranhos.
 Interessado, Alex aproximou-se com um sorriso.
 - Nos não entendemos nada do que estás ai a dizer. Olha, que tal irmos a algum lugar para falar?
 A ideia do Alex não parecia nada má, o que surpreendeu tanto o Mike como o Eric. A rapariga, por outro lado, limitou-se a sorrir levemente e começou a andar rapidamente num direcção, sem esperar pelos outros, como se ela também tivesse pressa em sair da floresta.
 Durante todo o caminho, os animais pareciam estar a segui-los mas desta vez encontravam-se mais longe, como se estivessem a evitar a criança que caminhava alegremente, sorrindo de vez em quando. O seu cabelo dançava com a leve brisa, tal como as fitas e os laços do vestido. Mike e os outros interrogavam-se acerca do tempo que teriam de andar mais quando Eric vislumbrou a saída. A rapariga correu e, ao sair, suspirou de alivio, olhando para trás. Os rapazes tinham a seguido obedientemente.
 - O meu nome é Rose. – afirmou, sentando-se na relva do parque.
  - Eu sou o Alex. – apresentou-se, também sentando-se – e estes são o Mike e o Eric.
 - O que estavas a dizer antes? – perguntou Eric, interessado no assunto.
 Observando-os por momentos, Rose suspirou mais uma vez.
 - Vocês devem ser novos na cidade… Eu própria não entendo porque mas todas as luas cheias, a floresta volta a ficar como se estivesse na época primaveril. Mais, torna-se incrivelmente perigosa para todos os seres vivos e mortos. Os animais tornam-se violentos e começam a atacar todos os estranhos que não vivem na floresta.
 - Tu não vives? – pergunto-lhe Eric, sem acreditar lá muito na historia dela.
 - Achas? Se vivesse não estaria a fugir, pois não?
 - Tu estavas a fugir? Tu estavas a segui-me! – contradisse-a Mike, zangado.
 - No inicio sim. Pensei que eram humanos normais. Só depois que reparei que não os eram. É muito raro ver gente como vocês por estes lados, o que me levou a seguir-vos. – explicou-se Rose – Mas vocês pareciam não reparar nem em mim nem no perigo que estavam a correr, por isso, aproximei-me mais e eis o resultado.
 Mike e Eric entreolharam-se, confusos com aquela situação toda. Apenas Alex manteve a mesma expressão, observando e analisando os gestos e as palavras da rapariga.
 - Acho que ela está a dizer a verdade. – afirmou, apontando para a lua quase cheia – Os animais estiveram a seguir-nos o caminho todo.
 Alex tinha razão. Vários animais encontravam-se no limite da floresta a olhar para o grupo com um olhar faminto e selvagem. Ninguém sabia que foi por um triz que estes não os atacaram com o propósito de matar e comer.
 A noite chegava ao fim mas nem Rose nem os rapazes tinham a intenção de se ir embora. Os gémeos queriam explorar a floresta enquanto que a Rose tinha alguns assuntos pendentes na floresta.
 Eric não entendia o que era a Rose. Apesar de parecer humana, não o era. Também não era um fantasma nem vinha do seu mundo. E muito menos era um monstro, visto que demonstrava ter sentimentos e emoções. Tudo o que conseguia sentir dela era um vazio enorme, como se ela não tivesse uma alma. “Quem é ela…?” interrogava-se o rapaz. Desde sempre que tinha uma incrível sensibilidade e conseguia ver muito mais do que queria como a aura da pessoa e a cor da sua alma. Era algo que mantinham em segredo e apenas o seu irmão o sabia, apesar de ser diferente dele. Agrupava as pessoas de acordo com a cor da sua alma. Vermelho para perigoso, azul para inteligente, verde para calmo… as cores mudavam de acordo com a disposição da pessoa. Aqueles que mentiam tinham a aura um verde sujo e era isso que ele estava a espera de ver na Rose mas mais uma vez, tinha-se enganado. A aura dela era um verde-claro, o que significava que para alem de estar calma ela estava contente. “Isto só baralha.” Pensou, afastando-se um pouco do resto do grupo e fechando os olhos para não ter que ver mais nada.