A escuridão puxava a consciência da
rapariga para as profundezas, escondendo-a da dor e do sofrimento por de traz
de enormes cabelos negros, cobrindo a entrada da luz. Esta já nem sequer estava
a lutar contra a sua captora, ansiando pelo esquecimento e inconsciência que
lhe trariam paz de espírito mais uma vez. As águas profundas seguravam-na
delicadamente, levando-a para o infinito.
“Saya” Uma voz estranha chamou da
superfície, tentando alcançar as profundezas. Algo agitou-se na água mas não
era o suficiente para acordar a bela adormecia. “Saya, volta.” Uma voz meio
chorosa puxava-a para cima, impedindo o seu esquecimento. “Estamos a tua
espera, princesa.” Mais uma vez, a rapariga agitou-se, abrindo os olhos no meio
da escuridão a procura da luz. Sabia que devia estar muito perto, mas onde? Era
difícil o suficiente manter os olhos abertos, quanto mais raciocinar
devidamente. Uma por uma, as cores até ai esquecidas começaram a aparecer,
porém estavam erradas. A rapariga lembrava-se daquela paisagem. Tinha a visto
alguns dias atrás, com as enormes árvores a crescer para o céu e a amigável
cidade medieval com as suas cores castanhas e amarelas. Porém o vermelho era a
cor predominante. O que devia ser verde ardia com pinceladas de laranja e
vermelho, enquanto as paredes da antiga cidade reflectiam o terror do vermelho
escuro do sangue. “Saya, foge! Foge!” Alguém gritava, escondido da sua vista.
Um puxão da cabeça foi o suficiente
para gelar. A sua frente, um enorme dragão de fogo erguia-se pelo céu escuro da
noite, pintando-o de vermelho e roxo, enquanto lançava fogo a tudo o que o
rodeava. “Corre!” Mais um grito conhecido chamou-a, obrigando-a a virar-se mais
uma vez.
Um grito mortífero fez se ouvir pela
planície, gelando as suas veias. Ela conhecia aquela voz, conhecia-a bem de
mais. Os olhos demoraram segundos a focarem-se, varrendo o que restava do verde
sem demoras, até encontrar o que procurava.
No chão, deitado no chão a esvaziar-se
de sangue estava o Dark, de olhos fechados e com uma espada vermelha cravada no
seu peito. Correndo até ele sem tomar atenção a nada, ela sentou-se nervosa,
tendo medo de ele já ter morrido. “Fica comigo…” Uma voz de criança rompeu o
silêncio, enquanto lágrimas salgadas percorriam silenciosamente as suas faces,
seguidas de soluços e lamentos. “Tu desses-te que ficavam comigo para sempre!
Não mintas!” As mãos estranhamente pequenas moveram-se até a espada
agarrando-a, sem saber o que fazer. A rapariga tremia sem parar, esperando ela
sua resposta. Ele não podia morrer, não depois de a ter encontrado.
Porém o silêncio manteve-se,
interrompido apenas pelo chiar do vento e o murmurar das ervas em sofrimento.
“Sa…ya…” Os olhos azul-escuro abriram-se, brilhando por uns momentos,
escondendo o seu sofrimento, até que a cor desvaneceu. O brilho foi-se e a sua
cabeça tombou para o lado.
“Não, não, não, não…” Pensava a
rapariga, já sem se conseguir controlar. Alguém se aproximava dela, murmurando
palavras incompreensíveis, chamando-a pelo seu nome. Mas estes não lhe
importavam. Tinham-no morto, tirado a sua vida sem mais nem menos, arrancando-o
da sua vida. “Não… Não vou perdoar…” Fulminando os recém-chegados com o olhar,
incendiou as suas roupas e a pele, deixando de ouvir os sues gritos de socorro.
Ela sabia o que fazer. Não o podia
deixar morrer sem mais nem menos, não depois do que ele tinha feito por ela.
Inclinando-se levemente até tocar na sua cara, ela começou a sussurrar palavras
sem sentido, numa língua diferente e antiga que já ninguém sabia usar. O seu
cabelo começou a brilhar, mais brilhante que as estrelas ou a lua. Um fio de
sangue tocou nos lábios dele, originando da sua mão cortada.
“Volta, Dark…” chamou,
beijando-o.
Um toque frio e desconhecido
chamou a atenção da Saya inconsciente, que tentava ao máximo não acordar para
não se deparar com a dor. Alguém a chamava, insistindo em faze-la voltar ao
mundo dos vivos. Não que ela estivesse morta, estava bem viva até, mas no
momento em que se voltaria a focar, toda a dor que tentava evitar voltaria a
ataca-la violentamente, sem nenhum receio de a fazer chorar.
Porém, as mãos geladas eram demasiado
insistentes, irritando-a ao chama-la a razão.
- Calem-se mas é! – gritou de
repente, levantando as constas do sofá no qual se deitava – Que tal darem-se
mais alguns segundos? Não sou masoquista, sabiam?
A sua voz forte e irritada fez sorrir
as cinco pessoas que a olhavam preocupadas, ansiosas pelo seu regresso. Tal
como Saya esperava, a dor veio sem avisar, atacando as suas costelas e o braço
esquerdo. Arquejando de surpresa, a mão direita vou até ao estômago, tentando
impedir a si mesma de se dobrar. A Rose correu em seu auxílio, dando-lhe um
comprimido branco que a forçou a engolir sem mais nenhuma palavra. Como por
magia, a dor desapareceu momentaneamente, deixando-a respirar em paz.
- Meu deus,
o que aconteceu? - perguntou, ignorando a pequena bruxinha que lhe observava o
braço.
A sua memória
estava incrivelmente vaga e os pormenores escondiam-se por de traz de uma
enorme cortina pesada de medo e insegurança. Uma sombra passou pelos olhos do
Dark que a observava, ansioso por sair daquela casa a procura does responsáveis
pela destruição. Aquilo não foi meramente um acaso, ele sabia isso, tal como
todos os outros. Apesar de tentarem manter a Saya na ignorância, protegendo-a
dos perigos, ela parecia sempre saber se algo se estava a passar. E aquele dia
não era uma excepção.