Os cobertores quentes cobriam a pele meio nua da Saya que dormia sossegadamente sozinha no seu quarto. A janela meio aberta ao fundo da parede deixava entrar um leve sopro de vento que trazia consigo o cheiro alegre de rosas e cravos silvestres.
Mexendo-se devagar, Saya abriu os olhos olhando a sua volta um pouco surpreendida. Não estava nada a espera que estar no seu quarto. A última coisa que se lembrava foi ter adormecido no jardim juntamente com os gémeos. "Que estranho..." Levantando-se, tirou o pijama vermelho que vestia e mudou para uns calções de ganga mais confortáveis e uma camisa sem alças branca. Caminhando lentamente para a casa de banho olhou para a entrada surpreendida com as escadas que ai se encontravam em vez de pedaços de parede destruída. Na verdade parecia que nada tinha acontecido, que aquele estranho terramoto foi só parte da sua imaginação e não um acontecimento real ao qual assistiu e sobreviveu. Abanando levemente a cabeça entrou por fim na casa de banho fechando a porta atrás de si a suspirar, olhando logo para o espelho horrorizada. O seu cabelo, normalmente liso e sedoso, espalhava-se pelos seus ombros todo entrelaçado, formando nós grossos, enquanto as suas madeixas tornavam-se cada vez mais visíveis. "Isto vai demorar..." pensou, suspirando mais uma vez ao lavar a cara e agarrar na escova.
Dez minutos mais tarde, estava uma nova rapariga a sair. Os cabelos vermelhos apanhados num rabo-de-cavalo na nunca, com as madeixas escondidas, pele limpa e olhos mais brilhantes que nunca. Porém, ao aproximar-se das escadas, ouvi um ruído vindo da cozinha. “Mas que..” pensou. A cozinha era um daqueles lugares que apenas ela se aproximava. Nem mesmo a sua mãe tinha a autorização para lá entrar, visto que sempre que o fazia era necessário chamar bombeiros.
Descendo calmamente, pegou na primeira coisa suficientemente longa e grossa para deixar alguém KO e dirigiu-se a cozinha sem fazer nenhum barulho. Ouviam-se três vozes diferentes, falando numa língua desconhecida rápida e rispidamente. Uma parecia ser de mulher, mas as probabilidades de ela acertar eram tão pequenas que Saya nem sequer deu-se ao trabalho de tentar escutar. Ainda doíam-lhe um pouco os ouvidos, apesar de a Rose os ter curado completamente. Tinha-a assegurado que não era nada que o tempo não resolvesse, afirmando que a dor devia-se ao choque e não a nenhum dano real. Respirando fundo ainda a interrogar-se onde aqueles cinco malucos estavam, Saya olhou de relance para a cozinha dando um grito de surpresa quando uma cara lhe apareceu a frente. Mexendo na vassoura como se fosse uma espada, tentou acertar na cara do desconhecido quando este a agarrou em prelo ar, torcendo a vassoura, obrigando Saya a deixa-la cair.
- É melhor teres cuidado com essa coisa, querida – Afirmou uma voz estranhamente familiar das sombras – Não gostarias de deixar o teu pai com um enorme olho negro logo no teu aniversario, pois não?
Das sombras negras saiu uma pessoa que Saya conhecia quase tão bem como a si própria, o seu pai. Os seus olhos castanhos-claros sorriam ao ver a cara espantada da filha enquanto o cabelo revolto lhe tapava meio do olho esquerdo. Sem pensar duas vezes Saya abraçou o pai a sorrir, esquecendo as três vozes que tinha ouvido antes.
- Pai! Estas a fazer o que aqui? Pensei que tu e a mãe só voltavam daqui a alguns dias… - afirmou, sem deixar de sorrir.
- Mudança de planos. Afinal vais fazer 16 anos, certo? Por fim a minha pequenina vai tornar-se uma mulher.
- Ainda não… Só tenho 16, lembraste? Vou ser maior de idade aos 18…
- Não no lugar de onde venho querida, não ai. Anda, a tua mãe está a tua espera na cozinha e queremos apresentar-te um familiar muito próximo. É o irmão da tua mãe – sussurrou a ultima parte ao ver o olhar séptico da filha.
A Saya nunca chegou a conhecer ninguém da família da sua mãe, pelo que estava um pouco excitada em conhecer, por fim, o tio do qual a sua mãe falava tanto e tantas vezes. Seguindo o pai até cozinha sorrindo, deixou cair o sorriso quando o cheiro a queimado lhe chegou aos ouvidos. “Mas que?” pensou pela segunda vez no dia, correndo até ao fogão onde um fumo espeço saía lentamente, sendo absorvido pela janela aberta logo ao lado.
- Mãe! Eu disse para não cozinhares! – ralhou para o ar sem sequer saber onde ela estava, enquanto afastava a panela do fogão. – Meu deus… o que é que pensavas que estavas afazer, uma fogueira?
- Eu queria fazer algo de especial para ti. Afinal é o teu aniversário e como ainda estavas a dormir resolvi aproveitar… Oh desculpa querida.
Uma mão clara apareceu do nada, abraçando gentilmente a rapariga zangada que olhava para a sua dona sem sequer esconder a sua fúria. Porém, no momento em que viu os olhos da sua mãe, suspirou e sorriu um pouco, em jeito de desculpas pela sua reacção. Agarrando na panela que pós no lavatório, Saya virou para a mãe sorrindo.
- Deixe estar… sei bem que cozinhar não é o seu forte… Mas afinal onde esta o tio? Pensei que estava cá consigo.
- Ele vem as doze. – Suspirando, a mãe começou a tirar coisas dos armários – Disse que tinha que tratar de umas coisas antes de vir cá e eu, como burra, deixei-lhe ir… Mas ele vem, prometo.
Acenando com a cabeça, Saya tirou o pacote de massa das mãos da mãe expulsando rapidamente da cozinha, pedindo para lhe deixar fazer o almoço. Sentia-se muito mais feliz do que deixava os outros ver, tendo os seus pais perto de si mais perto do que pensará que estariam. Ainda mais ia conhecer o seu tio, alguém que sempre quis conhecer. Porém o que a preocupava era o destino dos outros, que sempre desapareciam no momento em que os seus pais voltavam, escondendo-se na floresta. “Espero que estejam bem…” pensou, suspirando ao por a água aquecer, virando-se para a panela com massa queimada sem ter a certeza do que deveria fazer com ela.
Pegando numa caneta, entrou rapidamente para a sala onde os seus pais sussurravam animadamente. Confusa, agarrou numa folha branca perto da entrada, levando-a consigo de volta para a cozinha. Já era estranho o suficiente eles estarem em casa tão sedo, logo um dia após o seu aniversário, e mais ainda eram as suas caras contentes, que a confundiam vezes e vezes sem conta a medida que tentava decifrar o enigma dos seus desaparecimentos anuais. “Talvez algo bom aconteceu… Bem, já era tempo de variar e tudo mas… É melhor concentrar-me se não teremos mais um acidente em casa.”
Enquanto cortava a carne, Saya pensava na sua mãe e em tudo o que desconhecia em relação a ela. Saya nunca chegou a saber qual era efectivamente o trabalho da mãe, que preferia manter segredos e desaparecer quando lhe apetecia. A sua mãe era uma mulher baixa mais forte e o seu novo, Misaki, não combinava nada com a sua personalidade. Do seu pai já nem se falava. Sendo médico, era de esperar que as suas notas na escola fossem excelentes e ele tivesse sido um exemplar de aluno, porém, algumas semanas após entrar na escola secundaria, Saya descobriu que o Takeshi, o seu pai, foi meio delinquente e apenas estudava o suficiente para ter positivas. Esse facto sempre a espantará e divertirá, porém talvez fora por isso que a sua mãe acabará por ser uma mulher tão forte, para poder controlar o espírito rebelde do pai. Não que este fosse um exemplar de vida na vida da Saya, acabando de uma maneira ou outra de se portar como um rebelde, mas as suas acções eram sempre justificadas e quando necessitavam dele, este sempre lá estava. “Que par…” Rindo-se dos seus pais, tinha que admitir que o seu par ideal era alguém parecido com o pai, alguém que fosse capaz de a proteger quando ela não pudesse. Suspirando pela terceira vez naquele dia, olhou para o resultado do seu esforço satisfeita. Já ninguém podia dizer que o seu tio ia ter uma má primeira impressão, visto que fez tudo para o impressionar.
Guardando os pratos, dirigiu-se para o seu quarto, com o intuito de escolher algo bonito para vestir visto que já faltava menos de uma hora para ele voltar quando reparou nas escadas que brilhavam, novinhas em folha, não conseguindo esconder a sua apreciação. Da próxima vez que os visse teria de lhes agradecer muito, pois era difícil imaginar o que os seus pais fariam se vissem a casa meio destruída. Tinha a certeza que a sua mãe, no mínimo, iria passar alguns dias ao hospital, ignorando o que tinha acontecido depois de voltar. “Bem… tenho que admitir que eles esmeraram-se. Um problema minimamente resolvido, agora só falta a roupa.” No quarto, após fechar a porta, Saya tirou imensos tipos de roupa do armário, rejeitando desde de já os vestidos, sem sequer olhar para eles. As calças também não lhe pareceram muito apropriadas, por isso, pegando numa saia que adorava, agarrou na camisola de alças que condizia com ela, indo a casa de banho para tomar um duche. Realmente era mesmo isso que necessitava depois daquela emoção toda dos últimos dias. Interrogava-se oque estaria o Mark e os gémeos a fazer depois de ela os deixar pendurados assim. Tinha um pouco de medo que a detestassem, porém ela não poderia ter ficado lá mais tempo que ficou, apenar de admitir que a sua saída não foi a melhor de todas. Fechando os olhos a medida que a água quente lhe escorria pelos ombros, pensou em tudo o que aconteceu nos últimos dias. Por alguma razão sentia que não devia sair a noite até que a lua cheia desaparecesse. “Porque será?” Nada fazia sentido na sua mente, que tentava encaixar as várias peças de um puzzle desconhecido a medida que recordava os vários pormenores dos últimos dias. Foi então que se lembrou de ver uma piscadela no atendedor de chamadas automático que, ironicamente, os seus pais não sabiam usar.
Saindo do banho depois de relaxar, vestiu-se e penteou o cabelo escondendo as madeixas cuidadosamente, esperando que o tio não os visse. Calçando umas sabrinas brancas, olhou para si no espelho já no quarto e suspirou, mudando para um vestido simples brando que ia até ao joelho, suspirando mais uma vez. Parecia que já estava pronta, mas de uma coisa tinha a certeza, nunca deveria levar o convidado ao seu quarto que estava uma bagunça com as roupas todas espalhadas. “Que se lixe.” Pensou, pegando em uns brincos de ouro que os seus pais lhe ofereceram, saído do quarto o qual trancou para ninguém entrar, descendo as escadas com o coração a palpitar. Sabia que ele já lá estava, a conversar animadamente com os seus pais na entrada e parecia que não estava sozinho.
Chegando-se cuidadosamente até a porta, olhou para a entrada dando de caras com o seu pai que lhe sorriu e chamou, agarrando na sua mão quando tentou fugir. Irritada e envergonhada por ter sido apanhada, Saya saiu do seu esconderijo olhando para as duas pessoas a sua frente com um sorriso.
- Está é a nossa Saya – apresentou Takeshi, sorrindo.
Porém o sorriso da Saya já tinha desaparecido, substituído por uma expressão de surpresa e incredibilidade.
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